quinta-feira, 22 de junho de 2017

Voltei onde casei




Foto: ADORO














Voltei onde casei. Com a Alice. Saímos da creche. Fomos como habitualmente até ao carro. A brincar. Gosto de estacionar o carro longe. Ao contrário de muitos. Sentei-me no banco de trás e a Alice ao volante. Fingiu que estava a conduzir. Disse que íamos para as férias. E quando a viagem terminou sugeriu que fôssemos passear. As duas de mãos dadas. A dar voltinhas a uma espécie de jardins. Muito pequenos e um pouco abandonados. Tal como os prédios que os rodeiam. Parecem esquecidos. E nós ali. A passear pelo abandono. Pela degradação. Por dois tapetes pendurados numa corda prestes a tocar o chão. Não sei o que pensavam os outros pais que nos viam. Também não me interessa. Mas lá recuperámos os nossos papéis. Eu ao volante e Alice na cadeirinha. Ainda sugeriu que fôssemos à loja. Lembrou-se que nas tais férias tinha ficado de escolher uma mala pequenina. Teve azar. A loja encerra ao domingo à tarde. Ainda hesitei. Mas tomei a direcção certa. Fui para o Cristo Rei. Aquele sitio... Aquela capela... São especiais para mim. Há muito tempo. Desde que deixei lá um bilhetinho com os meus padrinhos e os meus primos. E eu de vez enquanto preciso de ir a sítios especiais. Estava vento. Muito vento. Tal como no dia em que casei. Dizem que estava muito frio. Eu não senti nada. Nem frio nem calor. Só amor. Estava tão bem. Foi tão bonito. Um dia quero repetir. Vou renovar o votos. Nós precisamos de renovações. Eu preciso. E hoje foi uma delas. Corremos ao vento. Eu e a Alice. Fizemos muitas pausas. Para olhar para o céu. Até conseguir ver o rosto do Cristo Rei. Corremos até ao limite. Às barreiras que não nos deixam cair. Tão linda aquela vista! Naquele dia nem a vi. Não escolhi o melhor mês para casar. Não dei ouvidos ao Quim Barreiros. Quis casar em dia de aniversário. No dia em que sempre celebrámos o amor. Era quase primavera. Acho que estava desagradável na rua. Eu não senti. Só o amor. E também andei por ali a pé. De braço dado com o Vitor. Mas não corri. Hoje sim. Fiz corridas. Subi e desci escadas e rampas a multiplicar. Até que entrei na capela. Especial. Sentei-me bem perto da porta porque estava com a Alice. Tive receio de perturbar. Mas ela ali ficou. Ao meu colo. Quieta. Sem os seus bichos carpinteiros. E ali ficámos as duas. No silêncio. Tal como há muito tempo não fazia. E se gosto de ficar em igrejas vazias. A pensar. A rezar. A fazer a tal renovação. Naquele dia estava cheia. De pessoas. De história. De emoção. E talvez de frio. Mas eu não senti. Só o amor. E a Alice ali estava. Sem mexer. Sem falar. Voltei onde casei agora com ela. A minha filha. E foi tão forte o momento. As duas. Não sei o que sentiu. Sei que quis ficar. Não quis sair. E eu fiquei. Apesar de as luzes estarem a apagar. Apesar de ficarmos cada vez mais sozinhas. Apesar de ouvir a porta a fechar. Só saímos quando nos mandaram embora. Expliquei-lhe que era ali que tínhamos casado. Eu e o pai. E ela disse-me que gostava de ali estar. Nem precisava de ter verbalizado. Sentiu-se. Voltámos às rampas e às escadas. Voltámos ao vento. Forte que nos travava na hora de correr. Mas nós ganhámos ao vento. Eu voltei a não sentir frio. Acho que a Alice também não sentiu. Perguntei-lhe duas vezes. Nunca me disse nem que sim nem que não. Acho que como naquele dia, foi amor que sentimos. E eu, agora que escrevo, acho que fiz as pazes que precisava. Naquela capela especial... onde um dia escrevi um desejo num papelinho... onde ofereci e recebi votos... onde casei com a Alice. Sempre que precisar vou voltar ao sitio onde casei.

Foto: ADORO



terça-feira, 4 de abril de 2017

acho que atingi a respiração ideal






















Não sei se vou conseguir explicar. Não sei se alguém irá entender. Se alguma vez alguém se sentiu assim. Mas tenho uma sensação como nunca tive. É um sorriso interno. Uma paz que se prolonga suavemente. Uma espécie de bem estar. Talvez a felicidade. Não sei. É apaziguador. É tranquilo. É discretamente bom. Parece que me sabe bem respirar. Ouvir. Sentir a respiração. Ouvir-me. Porque está tudo igual. Bem. Mas para melhor. Parece conversa de loucos. Talvez seja. Mas hoje (sábado) fiquei só com Alice. O pai foi ao Benfica-Porto. Saiu cedo de casa. Tipo final da Taça no Jamor mas sem o garrafão de vinho, sem o piquenique, sem a família e os amigos. Apenas com o cartão de sócio e com o cartão do cidadão porque a antecipação do jogo prometia filas e ruas cortadas e segurança apertada. E nós as duas regressámos de casa dos avós e da companhia dos tios e dos primos. A Alice estava febril. Preferi vir para casa. Como tantas outras vezes. Mas desta foi diferente. Estivemos tão bem. E costumamos estar bem. Mas houve cumplicidade. Mais do que o costume. Senti-a crescida. Conversámos. Ajudámo-nos. Divertimo-nos. Fomos cúmplices. E na hora de deitar a febre continuava a querer aparecer.  38.2 e a Alice cheia de energia. Disse-lhe que ia pôr o paninho na testa, tal como se fosse gelo. E tal como lhe fazia quando era bebé.  E ali ficámos. As duas. Eu a segurar o paninho. Ela a fazer-me festinhas. As nossas caras muitos próximas. O nosso olhar muito coeso. E cantámos. E rimos. E brincámos. E senti sempre um olhar apaixonado. Não sei se me sentiu a cuidar dela. Mas os olhos dela disseram-me isso. Não sei se me mentiram. Se vi coisas onde não existiram. Mas os olhos sorriam e pareciam apaixonados. E ali ficámos até chegar aos 37.05. Fomos para a cama. Escolheu a história da Girafa e do Pinguim. E na hora de ir apagar a luz... Fiquei com uma dor. Daquelas que nos congelam. Que não nos deixam mexer. Foi no ombro. Com certeza foi consequência da minha posição. Tal como a mãe girafa faço malabarismo com o meu corpo para estar na cama com a Alice na hora de adormecer. E o meu pescoço é muito mais pequenino. Ao sentir a dor pedi à Alice que esperasse. Fechei os olhos. E não mexi. E quando os abri senti que ela estava meio atenta. Meio preocupada. E sorri. E disse que já tinha passado. E lá ficamos às escuras. Beijo de boa noite. Seguiram-se os rituais habituais. E sinto uma mão nas minhas costas. Que me faz festinhas. Que me aperta. É a Alice que cuida. Como eu cuidei dela. Pergunta se a dor já passou. Tremo de felicidade. Digo que sim. Ela continua a fazer-me festinhas nas costas. Digo que é uma querida. Ela continua a apertar-me as costas. Agradeço-lhe. E a mão continua. Meiga. Para cima e para baixo. Apertadinha. E quando sai continuo a cantar. Para ela dormir. E ela adormece. E eu penso. Em muita coisa. A minha cabeça não pára. Já estou noutros momentos. Mas regresso. Quando saio do quarto. Quando respiro. Quando me apetece respirar. Porque é bom. Nunca senti. Parece que senti pela primeira vez que me ama verdadeiramente. Que me admira. Não sei explicar. Nem sei entender. Sei que sempre gostou de mim. Sei que às vezes diz que sou a Célia querida. Sei que me dá beijos e mimos. Sei que me abraça. Mas hoje senti mais. Suavemente mais. Sinto que respiro e que suavemente o coração aumenta... sem aumentar o ritmo cardíaco. Parece que atingi aquela respiração ideal. O batimento certo. Aquele que não nos preocupa. Que nos descontrai. Que no diz: É isto! Por mim... o coração podia entrar em loop. 

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Mãe.Trabalhar. Não. Aqui.

Palavras. Palavras. Palavras. Gosto tanto delas. De escrevê-las. Às vezes vou à infopédia. Às vezes o corretor ortográfico baralha-me. Às vezes zango-me com o acordo. São palavras, senhor! Palavras que parecem rosas. Às vezes fazem-me rir. Outras vezes suar. E são as palavras que correm na boca da minha filha. Assim em velocidade. Palavras soltas que ela entende. E que encadeia para comunicar. Não existem verbos. Para quê? Bastam as ideias. Bastam as palavras soltas. E bastam as expressões. Também não existem tempos. O tempo é só um. O presente. Tão bom. Porque havemos de crescer e olhar para o relógio? São palavras novas. Umas bem soletradas. Outras assim, assim. E muitas inventadas. Originais. Muitas palavras que significam muito. Outras palavras que apenas significam para ela. E nós dizemos que sim. Porque não sabemos como reagir. Palavras que ela já não usa isoladamente. Já desencadeia ideias. Mesmo que abdique dos pronomes. Mas comunica. E aumenta a dificuldade quando usa palavras mais criativas. Mas nessa altura é a expressão que a safa. Ou pelo menos ela tenta. Esforça-se. Não se deixa ficar. Também repete. Muito. Até lá chegar. E andamos nisto. Entre palavras. Palavras cheias de tudo. De amor. De orgulho. De interrogações. Palavras. Palavras. Palavras. Que se atropelam. E que nos aproximam cada vez mais. Mas senti falta delas. Já estou a recuperar. Mas andei a trabalhar. Mais do que o habitual. Dias sem parar. E foram menos horas com a Alice. Foram menos palavras dela. E houve um fim de semana em que apenas nos apertávamos de manhã. Quando a levava para a minha cama. Ainda a dormir. Sem querer desapertar. Ali ficávamos as duas. Coladas. Coladas. Coladas.  Ela ainda não conhece esta palavra, mas de certeza que a sente. E assim ficámos breves minutos. Juntas. E na minha ausência, trabalhar foi a palavra mais utilizada para falar de mim. Mãe. Trabalhar. Mãe. Trabalhar. De tal forma que quando lhe perguntei pela Bia que não vi na escola, ela me diz: Bia. Trabalhar.  De tal forma que na segunda-feira aproveitei para a apertar. Mais do que o habitual. Ficámos juntas na cadeira. Foi bom. Senti-la. Ouvi-la. Mãe. Trabalhar. Não. Aqui. Percebem porque não precisamos dos verbos? Nem dos pronomes?  Crescemos e complicamos. E naquela manhã, a Alice soube dizer que eu não estava a trabalhar. Que estava ali com ela. E que ali queria que ficássemos. Mas seguimos. Atrasadas. Abraçadas. Choramingámos as duas na hora de ficar. Mas disse-lhe que ia buscá-la. Acho que percebeu. E consegui. Já só sobrava ela na sala. E foi bom ouvir. Mãe. Aqui.  

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

regresso às aulas




Lembro-me do meu primeiro dia de aulas. Lembro-me de seguir no Clio verde claro metalizado da vizinha Amélia. Não se contavam as pessoas e seguíamos muitos. A Ana, a Marta, a minha irmã, eu e  o Ricardo Castanheira. Os dois deixámos o carro e lá entrámos na escola. Timidamente. Lado a lado. Como se não nos conhecêssemos. Sem falar. Lembro-me de ficar sossegada à espera que tocasse.  Ainda me vejo lá. Cabelo escuro. A franja. A olhar para a porta. E lembro-me de nos separarmos. Cada um seguiu para uma sala diferente. E ainda me lembro de ver a Canocha a correr com os cabelos mais cumpridos de todos e a mochila laranja que quase tocava o chão. Depois, lembro-me de não dormir antes de começar o 5º ano. Uma escola grande. Um trajeto para percorrer sozinha e a pé. Muitos livros. Muitos professores. Um horário para compreender. Alunos muito crescidos. Tantas e tantas novidades. Mais tarde, lembro-me de chorar baba e ranho no 8º ano. Quando na janela de sempre do Pavilhão A observei a minha turma. Li vezes sem conta. A tremer.  E lá estava eu. Sem a Canocha. Sem o Paulo Trindade. Sem o António. Sem... sem... sem. E foi a desgraça. O fim do mundo. E não parei. E só sosseguei quando consegui mudar de turma. E o Nuno Matias foi um querido. Trocou por mim. Que amor. Que prova de amizade. E na mudança para o secundário novas noites de ansiedade. O autocarro. A turma nova. As disciplinas. Mais pessoas. Mais pessoas mais velhas. As barracas dos ciganos que ficavam à entrada da escola. Depois, lembro-me da viagem de autocarro pela autoestrada até Setúbal. E de lá até à estefanilha. Pela primeira vez sozinha. Sem a Canocha. Só novidades. A turma. A exigência. As praxes. Em fila indiana com caras desconhecidas que se foram tornando familiares. O calor. As pinturas a derreter na cara. Os gritos. Os nossos. "Sexo, orgasmo, tesão, é tudo comunicação". Os deles "Caloiros". As roupas cada vez mais sujas. Os pombos e nós deitados nos dejetos deles. E finalmente o banho na fonte como manda a tradição. E o regresso a casa. No mesmo autocarro. Mas já com companhia. Todos sujos. Mascarados. Cansados. Mas mais felizes. No fundo é isto. O desconhecido mete medo. Mas passa. Todos passamos por ele. E hoje no trajeto de casa para a escola da Alice deparei-me com pais e miúdos frente às escolas. Lembrei-me que nós não tínhamos os pais. Lembrei-me da imensidão que era o primeiro dia quando implicava mudanças. Lembrei-me dos meus sobrinhos. Do Rodrigo que ainda só tem 9 anos e já vai para uma escola de grandes. Pequenino. Refilão. Imaginei-o à procura das salas. Imaginei-o a ouvir os professores. Confundido pelas novidades. Imaginei-o no refeitório perdido. Imaginei a Inês numa imensidão de gente. Gente diferente. Gente mais crescida, agora que vai para a Escola Secundária. Imaginei-a no mesmo canto como eu ficava com a Canocha nos primeiros dias. Os primeiros intervalos. Imaginei-a nas primeiras conversas com a turma. E ainda imaginei a Alice. Quando chegar a vez dela. Mas aí o pensamento congelou. Doeu. Não quis mais. E decidi escrever. Escrever que de facto custa o primeiro dia. A primeira semana. Custa ainda mais a semana anterior enquanto a mudança não se concretiza. Imaginamos. Receamos. Não dormimos. Tentamos disfarçar. Mas na verdade é só isso. Fiz o exercício e lembro-me de muito pouco. Lembro-me apenas daquilo que escrevi. No fundo, parece o fim do mundo. Andam os filhos. Andam os pais. Os tios. Os avós. Andam todos preocupados e ansiosos. Porque os filhos vão mudar. Porque os netos vão ter uma nova escola. Porque os sobrinhos vão ter mais responsabilidades. É parte do crescimento. Mais tarde são apenas algumas lembranças que ficam. A dor passa. E mesmo que as recordações nos façam suspirar elas fazem-nos crescer. Foi por isso que hoje quis escrever. A todos aqueles que ontem e amanha andam a sofrer com as mudanças dos filhos. Dói. Mas amanhã já sorriem mais um bocadinho. E depois ainda mais. E no futuro é tudo parte do crescimento. Deixem-nos ir. Descobrir. Mudar. Viver. 
Bom regresso às aulas. 

terça-feira, 13 de setembro de 2016

amor amor amor




















Nesta fase a Alice só quer adormecer com a mãe. Às vezes não apetece. Às vezes demora muito. Às vezes tento impingir o pai. "Hoje vais dormir com o pai?". Mas a resposta não surpreende. E lá subimos as escadas. Em direção à rotina. Até que a luz se apaga. E enroscamo-nos uma na outra. No verão custa mais. Às vezes ficamos coladas. Nas noites mais quentes. E nas mais longas. Nem sempre é fácil. Nem sempre a canção resulta. Mas se não canto a Alice canta por mim. Como se me pedisse. E quando recomeço ela silencia. Mas há noites em que não fica. Demora. Ontem foi assim. Estava difícil. Não queria descolar-se de mim. E vamos dançando pelo quarto. Mas o cansaço chama-me. Nessa altura é a cadeira antiga de madeira que nos embala.  Até eu fecho os olhos. Descanso. Mas não resulta. Ganho forças. Às vezes perco a paciência. Mas disfarço e volto a dançar. E quando não resulta regresso ao descanso. Ontem foi assim. Nessas noites levo-a para a minha cama. Ficamos. Camufladas. Uma na outra. Os meus braços nas pernas dela. As pernas dela nos meus braços. Ficamos. Entrelaçadas. Abraçadas. Sufocamo-nos. De amor. E ela adormece. De imediato. E agora sou eu que não consigo descolar-me dela. Fico ali. A olhar para ela. Venero-a no escuro. Encho o meu coração com os pensamentos. Acumulo amor como se de um balão se tratasse. Enche e enche e enche. Penso que a amo. Que a amo. Que a amo. Recordo-a no dia a dia. Vivo os momentos de novo. Mas de uma forma mais intensa. Em crescendo. Vivo a Alice nas suas primeiras conversas. Nas suas brincadeiras. Nas atitudes. No dia a dia. Mas vivo de outra forma. Em êxtase. E no escuro penso e sorrio. E estou menos colada à ela porque me vou libertando. Mas não paro de lhe tocar. Suavemente. E de pensar. Que amor. Que amor. Que amor. E depois pego nela. Para a devolver. Ao berço. Ao quarto. E para me devolver a mim. E quando pego nela. Pesada como nunca. Entregue a mim como nunca. A cabeça estende-se no meu braço e os meus lábios percorrem o rosto dela. Beijo-a. Beijo-a. Beijo-a. E penso no amor. No amor. No amor. Parece impossível. Parece inacreditável. Parece mais que tanto. Parece que este balão enche sem parar. E sem rebentar. Depois transfiro o peso pesado para o berço. E peço que descanse. Que Deus a abençoe. E agradeço. E depois regresso. A mim. Às tarefas. Ao dia seguinte. A Alice vai voltar a querer a mãe. A dormir com a mãe. E eu nem sempre vou ter vontade. Às vezes custa. Às vezes demora. Mas será para sempre o momento em que os meus olhos ultrapassam o escuro e fazem transbordar o coração. Um dia sei que vou deixar de impingir o pai. Espero não precisar de impingir a mãe. Espero que ela se enrosque na minha cama e me faça pensar no amor. No amor. No amor. 


quarta-feira, 20 de julho de 2016

ALICE(S)












O tempo voa. E a Alice neste momento já tem uma série tipo “Anita”. Ou Martine, como agora lhe chamam. Alice na feira do livro. Alice na festa da escola. Alice e a melhor amiga. Alice rega as flores. Alice come areia da praia. Alice no passeio de bicicleta. Tanto que ficou por contar. Tenho vivido. Tudo. Mas sem tempo e inspiração para registos. Há fases em que me arrasto. Mas com o sorriso. Porque em cada uma destas atividades a Alice não se cansa. Cansa-nos. Porque também existe a Alice e a dor de dentes. Alice e as cólicas. Alice e as insónias. E tudo isto manifesta-se no mesmo período do dia. Ou seja, de noite. E ela tem madrugado. Muito. E nós vamos por arrasto. Sem vontade de acordar. De sair da cama. Saber que o percurso de ida ao berço traz a Alice na volta. Porque vai estar levantada. Porque vai pedir colo. Porque estica o dedo e o braço na direção do nosso quarto. Não adianta deitá-la ao colo. Ela estica-se. E nós estamos em piloto automático. E deixamo-nos ir. E no nosso quarto escuro ela procura a almofada. A da amamentação. E faz um meio sorriso nervoso de felicidade. E tira a chucha quando pego na almofada. E ali fica. Sem dormir. Eu encosto a cabeça para traz. E fecho os olhos. Nem sei se adormeço. Acho que não. Vou me deixando estar. Tal como ela. Que não adormece. Vai mudando da esquerda para a direita. Da direita para a esquerda. Nos intervalos chama “mãe”. Que pode significar “mais”. Ela usa o mesmo som para as duas palavras. É assim até se fartar. Até se atirar para a cama. Mas só fica alguns segundos. Repete as viagens. De um lado. Depois vira-se para outro. Lá sossega. Uns segundos. Lá muda de direção. Se o pai ainda está atira-se a ele. Encosta-se. E aquece-nos logo o coração. Mas são segundos. Ela arrebita. Arrasta-se de barriga para baixo até sair da cama. Sabe que é assim que se desce do sofá. E vai a correr pelo chão. Descalça. A fazer barulho. E nós às vezes corremos. Quando duvidamos que a cancela das escadas está fechada. Outra vezes tentamos ficar. Outras temos de ir tomar banho. Qual despertador! Antes corria para as pantufas. Agora o calor pede que ande descalça. Agora corre para brincar. Chega ao quarto e começa a energia. A dela. Mesmo que ainda sem as pilhas bem carregadas. E nós em modo “avião”. Queríamos que não nos incomodassem. Mas não pode ser. Há um ou outro dia em que a paciência demora. Mas na maior parte dos dias não há como. É entrar nas brincadeiras. É dar luz ao quarto porque acabou-se o descanso. É ver se o cão da vizinha está lá para lhe darmos os bons dias. Ou se apanhamos o comboio que passa. É distraí-la enquanto estamos no banho. Enquanto estica a perna porque quer entrar na banheira. É tentar contornar as asneiras. Sabe que o polvo ou o caranguejo costumam ter a barriga cheia do banho da noite anterior. E sabe o efeito que têm se os apertar. E ela carrega. Com força. A olhar para mim e a sentir a água. E sabe que não quero. E ri-se com a chucha. E quando a água termina vai ao papel higiénico. E volta para trás para limpar o chão.  Onde molhou. Esquece-se que já chapinhou tudo. Mas o que importa? Ela limpa o chão. Tal como um dia me viu fazer. Não há como repreender. Depois é correr para chegar primeiro. Primeiro que a mão toque o piaçaba. Ou abra o tampo da sanita. Depois é deixá-la brincar no bidé. Bate palmas quando encaixa o ralo. Mas assim que possível a porta da casa de banho fecha. E a ação acontece entre os dois quartos. Normalmente explora uma das minhas gavetas. E gosta de andar com o meu creme. Abre e espalha nas minhas pernas. Ou na roupa se tiver vestida. Hoje decidiu por creme no espelho. E assim vamos andando pela madrugada. Até descermos as escadas. Aí passamos em modo colo. E multiplicam-se os braços. E os da Alice também contam. Ela leva as colheres para a mesa. E segura o iogurte. E esborracha. E tenta abrir. Corremos quando o microondas apita. Andamos entra cozinha e a mesa da sala. Entre as papas de aveia com fruta. O pão com sumo de laranja. O iogurte com fruta. As bebidas de arroz e soja e avelã, etc. com weetabix. Antes era uma colher para a Alice. Outra para a mãe. Agora comemos ao mesmo tempo. Também já passámos ao episódio da Alice come sozinha. E suja. A mesa. O chão. E é preciso fazer uma ginástica para não sujar a roupa. Mas talvez a melhor parte seja quando abro a porta para a rua. Ela gosta. Ela sai. Hoje levou a minha marmita. Arrastada pelo chão. Deixo-a ir. Vai contente. E na viagem desliga. Antes adormecia. Ultimamente apenas se deixa estar. Tal como eu na cama. Mas ela não fecha os olhos. Mas quando o carro para... Quando abro a porta... Quando digo “chegámos à escolinha”... recargam-se as pilhas. Todas. E lá vamos. Como se tivesse dormido o que não dormiu porque madrugou. Ninguém desconfia. Já eu? Os bocejos nem sempre me deixam esconder a falta de energia. Nem sempre me concentro como queria. Nem sempre crio como gostaria. Mas não deixo de viver. Com ela. Com o pai. Não deixo de construir capítulos com a minha “Anita”.  Às vezes o truque é dormir a sesta com ela. Ao fim de semana. No regresso da praia. Mesmo que seja meio dia. Às vezes é contrariar tudo e ir para a cama às 22h. Logo a seguir a ela. Outras vezes refilamos um com o outro. Depois passa. Sabemos que é cansaço. Sabemos que temos menos paciência para nós. Sabemos que demoramos mais tempo a fazer as coisas. Sabemos que nada nos dá mais gozo do que correr com ela. Porque esta Alice, qualquer que seja o episódio, corre. Corre. Sem parar. E a sorrir. E é isso que nos cansa. Mas também é isso que nos carga as baterias.  

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Uma história para o dia da mãe, e para todos os dias

“Tu nunca sabes o quão és forte, até que seres forte é a única hipótese que tens”. Ouvi a citação num momento de pesquisa. Através de uma reportagem da SIC. E lembrei-me dela. Da minha maninha do coração. Não me lembro da primeira vez que a vi. Mas lembro-me que faz parte da minha vida. Desde sempre. Chama-se Ana Rita. Para mim é e será a Rititas. Sempre. Tem 18 anos mas sei que a chamarei assim até ter 60. Já velhinha. E lembrei-me dela. Naquele momento. Tal como em muitos outros da minha vida. Talvez não haja dia em que não pense nela. Na Rititas. E em simultâneo nesta citação que guardei a lápis de carvão. Conheço a minha memória e sabia que iria querer voltar a esta frase. Simpatizei com ela. Concordei com ela. No fundo, reconheci-a. Consegui vê-la. Muito para além do rosto da SIC. Porque a Rita não teve outra hipótese. Embora as hipóteses fossem muitas. Muitos outros caminhos poderiam ter-lhe tirado a força. Era adolescente. E a mãe tornou-se estrelinha no céu. Quer dizer, Rainha. Eu e a Rititas trocamos muitas sms. Falamos muito. Hoje sabemos um pouco menos uma da outra porque ela decidiu trabalhar. Em vários sítios. E estudar. E tirar a carta. E namorar. E cuidar da avó. E do mano. E do pai. E da casa. Sei lá. Ela não pára. De viver. De nos ensinar a viver. Ela sorri. Ela faz sorrir os outros. Ela tem apenas 18 anos. Mas é assim desde sempre. Sempre foi muito mais mulher do que menina. Sabendo ser criança. E tendo sido adolescente. Sempre foi crescida. Acho que substitui a mãe lá em casa. E sem saber, a mãe preparou-a tão bem. E sem querer, a Rititas interiorizou tudo tão bem. Sou uma maninha tão orgulhosa. Ela dá-me força. Dá-me vida. E foi por isso que a trouxe até ao meu coração de criança. Timidamente, pedi que falasse do dia da mãe. E ela devolveu-me aquilo que eu já sabia. Uma lição de vida. Deu respostas e fez perguntas. Eu limito-me a publicar, porque apesar de concordar com a frase inicial, também sei que nem sempre a única hipótese é ser forte. Há quem escolha outros caminhos. E por vezes com menos razões. No rescaldo do dia da mãe, fica uma história bonita. A história que a Rita constrói todos os dias para continuar a viver e a sorrir. Façamos todos o mesmo. 



















O dia da mãe sempre foi um dia muito especial, vivido desde a infância. Um dia de alegria, de ansiedade, de carinho, mas em especial de muito amor.

Tudo começa na escola, não é verdade? Quando se aproximava o dia, lá vinham os professores com as suas ideias extraordinárias para que nós, crianças, pudéssemos mostrar o amor à nossa mãe, naquele dia tão especial. Comigo sempre foi assim, e eu tinha sempre muita vontade em fazer as prendinhas, não tinha arte nem jeito para o desenho, que era o que mais fazíamos, mas a minha mãe não ligava aos pormenores nem à perfeição, mas sim ao valor. Na escola eu pensava nela, e imaginava as cores que ela mais gostava para puder desenhar com elas, pintar com elas e dessa forma fazer com que sentisse sentir que eu a conhecia muito bem.
 
Era uma diversão… na altura em que trazíamos a prenda para casa, eu tinha de esconder, pois só lhe podia dar no dia a mãe logo pela manhãzinha e aí o meu pai e o meu irmão ajudavam-me sempre a escolher o melhor esconderijo para que ela não encontrasse a prenda.

Este dia, no pensamento de muitos pode ser vivido sempre da mesma maneira, mas eu penso que não… todos os anos era diferente, sabem porquê? Porque nós próprios vamos crescendo, e isso faz com que a nossa visão do mundo também cresça e nos ajude a formar novas ideias, novos pensamentos, e claro, dias sempre diferentes todos os anos, de modo a que não se torne um dia monótono.  

Por exemplo… num ano podia acordar e ir a correr para a cama e encher a minha mãe de beijinhos e carinhos e dar-lhe a prenda que tinha feito na escola, mas no ano seguinte fazer diferente e acordar como se nada fosse para que ela pensasse que eu me tinha esquecido, e de repente surpreendê-la e deixá-la com um sorriso. E muito mais…
 
Para mim o dia da Mãe sempre foi e será vivido como um dia especial, diferente dos outros, mas não só por ser o dia da Mãe, mas também por ser mais um dia da Mãe. Percebem o sentido da minha frase? Para mim, o dia da Mãe não é só um dia no ano, mas sim os 365 dias.

Lembro-me, quando tinha uns 10/11 anos, de sentir uma ansiedade enorme para que o dia da mãe chegasse... mas porquê? Foi nessa idade que a minha mãe começou a lutar contra o cancro. Mas se eu sabia que ela era forte, porque teria tanta vontade que esse dia chegasse? Bom, na verdade, se calhar era para celebrar mais um ano de vida, mais um ano junto dela, mais um ano a partilhar sorrisos, amuos, discussões, carinho, brincadeiras, maluquices e tudo e tudo… Não tinha muita idade é verdade, que sabia eu da vida? Se calhar sabia mais do que imaginava…  

Nessa altura, no dia da mãe foi diferente... Eu acordei e pensei “hoje vou viver com a minha mãe”. Mas porquê? Não seria um dia como outro qualquer? Sim, mas naquele dia dedicado às mães eu podia mostrar ainda mais ao mundo a Rainha que tinha, e que iria lutar com ela todos os dias, para que as duas pudéssemos chegar ao dia da mãe do ano seguinte. Lembro-me de ela me abraçar com muita força e agradecer por me ter, porque apesar de todos os disparates que fazia, ou as guerras com o meu irmão, eu estava sempre lá com ela.

Todos os dias questionava o facto da minha mãe ter sido obrigada a travar esta luta e eu não poder lutar também. Foi nessa altura que me tornei mais forte e comecei a viver cada dia melhor, ou seja, comecei a aproveitar mais, a não fazer tantas birras com isto ou com aquilo, pois pensava que mãe eu só tinha uma e seria para sempre, fosse como fosse. 

Lembro-me de ela me dizer: “A mãe é forte e vai conseguir” e eu sem propriamente ter a noção dizia: “Eu sei que és mamã, e não tarda muito vais ficar boa”. Por azar não foi assim, mas não desistiu. Lutou, lutou e lutou até que Deus quis.

Eu e o meu pai fazíamos uma bela dupla a preparar surpresas. Nesse mesmo ano em que a minha mãe começou a ficar doente, pedi ao meu pai para a tirar de casa, pois eu queria preparar-lhe um jantar-surpresa, sendo que a comida seria feita por mim, tinha penas 10/11 anos… o meu pai fez a parte dele e eu a minha, comecei cedo e aprendi e adorei e diverti-me. Fiz a comida, decorei a mesa especialmente para ela, com a ajuda do meu irmão, que apesar de andar-mos sempre as turras sempre fomos muito unidos… quando ela chegou ficou de boca aberta, não acreditava no que via, fiz um dos pratos que ela mais gostava (o mais fácil de todos para começar ahaha), e assim celebrámos todos esse jantar da forma mais bonita que podia existir.

Hoje, o dia da mãe é igual como sempre foi todos os anos. Ela não está presente fisicamente, é verdade, mas para mim isso não importa porque a pessoa está e estará sempre dentro de nós. 

Perguntam: é estranho? Como consegues viver o dia? Não é estranho, e não é uma questão de hábito... Ninguém se habitua à ausência de uma pessoa tão especial. Consigo viver este dia, como sempre vivi, como sendo o Dia da Mãe. E agora perguntam: “Mas como?” É muito simples! Continuo a fazer o mesmo, a preparar-lhe uma prenda, a acordar e pensar nela, vou visitá-la, dou-lhe beijinhos da forma que só nós as duas bem sabemos, deixo-lhe a prenda, sempre as mais lindas flores que eu encontro, não quer dizer que sejam as melhores flores do mundo, mas basta serem as flores que eu acho que são perfeitas para a minha Rainha. 

Muita gente diz ou pensa “com o tempo vai-se esquecendo, e vai custando menos”. Enganam-se! Pelo menos eu não sou assim. Cada dia a lembrança é maior, a ausência maior, a falta maior, e a dor ainda maior. Para mim a pessoa quando parte, só porque se ausenta da nossa visão não quer dizer que a tenhamos que apagar da nossa memória, e o segredo está aí. A minha mãe está na minha memória e sempre estará. Todos os dias eu penso nela, todos os dias eu fico parada a olhar não sei bem para onde e penso, mas isto não é verdade... A maior parte das vezes o que eu penso é “isto é um sonho e eu quero acordar”, mas depois caio em mim e penso, Não!! Não é um sonho, abre os olhos e olha em frente e pensa. Ela foi para um mundo melhor, o mundo das Rainhas, onde continuará sempre a olhar por ti, e tu fazes aquilo que ela te ensinou e, acima de tudo, fazes tudo o que mais a fará sorrir”. É verdade, é assim que penso, ela partiu e eu fiquei, mas fiquei a representa-la. Se sei o que sei, se tenho a experiência de vida que tenho, a ela o agradeço e por isso aprendi a viver os dias como se fossem os últimos, upss! Fui muito fria??! Não… a melhor coisa que nós podemos fazer é aproveitar cada dia como se fosse o último. Se me apetece ir à praia, eu vou, se me apetece gritar, eu grito, se me apetece sair de casa andar sozinha por aí, eu vou, se me apetece comer tudo o que me vai fazer engordar, eu como, se me apetece… eu faço, porque hoje eu sei que posso e amanhã eu já não sei!

Há pessoas que me dizem: “A menina é forte”, e eu sorrio e digo: “aprendi com a minha mãe”. Choro e muito, aliás sou chorona, sempre fui e sempre irei ser, sou assim, quem não gostar pode seguir. Chorar alivia, sabiam? Não é ser fraco, é apenas expressar algo, como quando sorrio também expresso todos as coisas boas e tristes ao mesmo tempo.

Uma coisa é certa, andar a chorar pelos cantos não resolve, e sabem o que eu faço? Eu sorrio todos os dias porque sei que a minha mãe também sorri ao ver-me, ao ver como cresci, ao ver o que faço e que com ela aprendi. E choro, sim, mas nas alturas que quero. Gosto de chorar sozinha, gosto de chorar e não falar, por isso tenho os meus momentos e nesses momentos a verdade é que nunca estou sozinha, ela está comigo e é isso que no fim me faz sorrir e encarar a vida com mais força.

Por isso, vivam o dia da mãe como sempre viveram, como se sentissem que a vossa mãe estivesse ali, a receber a vossa prenda, a receber o vosso carinho, a abraçar-vos, a agradecer por se lembrarem dela, e não ignorarem o dia achando que já não está presente. Não é verdade, ela vê sempre, aliás, muito mais, ela guia-nos, ela protege-nos e ela guarda-nos…

Sintam-se orgulhosos por terem e continuarem a ter uma mãe que nos gerou, que nos suportou durante 9 meses, que nos deu ao mundo, e que nos ensinou muito do que somos hoje, mãe é sempre aquela ligação forte, MÃE só há uma, para mim é insubstituível e é eterna.

Escrito por Ana Rita Godinho