sexta-feira, 1 de setembro de 2017

o cheiro da saudade



















A Alice adormece comigo ao lado. Ainda. Costumo apertá-la. Quando a história termina e a luz se apaga. Não hora do beijo. E normalmente esse beijo é de chucha. Mas não me importo. O importante é o gesto. É o aconchego. Gosto de senti-la. Acho sempre que as palavras precisam dos gestos. E este aperto reforça as palavras. Faço questão de senti-la. Mas acima de tudo, faço questão que ela sinta que a amo. Que estou ali. E que estarei. Sempre. E para sempre. E numa destas noites... num destes aconchegos... apertei a Alice. E as palavras soltaram-se na mesma intensidade do abraço. Numa dessas noites... disse-lhe que vou ter tantas saudades disto. Destes momentos. Dela. Ela sorriu. Depois do silêncio perguntou se também iria ter saudades do pai. Disse-lhe que sim. Depois apertei-a de novo. Até ficar com o cheiro dela. E voltei a dar voz ao meu coração. Pedi que me desse aquele cheiro. Para guardar num frasco. Para um dia abrir e matar saudades. Ela sorriu. Não respondeu logo. Mas depois disse-me que sim. E nessa noite... apaguei a luz e a Alice encheu-me de beijos e de apertos. Desajeitados. Mas apertados. Não sei se percebeu o que lhe disse. Mas tenho a certeza que sentiu. Tão bom! Mas que maravilha é esta? Que sentimento? Que vontade de apertar? Alguém sabe? Que cheiro é este? É tão dela mas é tão de criança. Ou melhor, de filho, de sobrinho... de um amor especial. Um cheiro para lá do perfume. Ali na zona do pescoço. Assim perto das orelhas. Atrás do cabelo. Uma mistura de odores. A pele. O creme. O suor.... Mas é tão bom! E cheira a saudade. Se cheira! Alguém sabe? Alguém reconhece? Alguém justifica? Só pode ser amor. Em forma de odor. Mais uma forma que o corpo encontra para nos  ligar. Mas será que fica? Será que consigo guardá-lo? E quando abrir o frasco será que se vai evaporar? Ou será que o cheiro muda mas o amor fica? Sei que estou na fase da paixão. Que tudo é agora mais intenso. Muito intenso. Estamos completamente apaixonadas uma pela outra. É o início. É o encantamento. Como será? Ainda não conheço este amor no tempo. Sei que a paixão dela se apagará. E a minha? E também sei que o pai dela continua a ter o mesmo cheiro. Do início. Da descoberta. Da paixão. É por isso que tenho esperança. Acho que não preciso de fechar este cheiro num frasco. Vou aproveita-lo. E dar graças a Deus pelo meu olfato.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

As melhores férias




Estamos de férias. Os três. E a três. Que maravilha! Somos nós. Só nós. Intensos. Autênticos. Simplesmente deixamo-nos estar. É tempo de ficar. E o tempo ficou em casa. Não o queremos cá. Na casa de férias. Na Quarteira. Tão simples e tão bom. Tão repetitivo e tão refrescante. É aqui que ficamos. Acordamos. Adormecemos. Sem hora marcada. É Aqui que brincamos. Corremos. Baloiçamos. Sem ritmo. É aqui que sabemos a sal. Que sentimos a areia no sofá. Que pintamos o carro de pó. Sem pressas de limpar. Aqui construímos castelos. E destruímos. Carregamos baldes de água. Entramos e saímos do mar. Sem nunca secar. Aqui mergulhamos. Até não poder mais. É o sol que nos guia. Quando se começa a esconder. E nós continuamos sem pressa. Entramos no jogo das horas. Brincamos com elas. Tentamos adivinhar a quantas andaremos. Saímos molhados. Com a areia colada aos pés. Arranha mas não incomoda. Saímos felizes. Sentimos que demos tudo. Não podíamos ter corrido mais atrás da bola. Não podíamos ter encharcado mais as toalhas. Não podíamos ter saltado mais com as ondas. Seguimos os três. E a três. Subimos a rua. Um carrega as tralhas. Outro empurra o carrinho. E alguém segue tão descansadinho! Nem sempre sabemos o que jantar. Nem onde. Mas seguimos. Os três. E a três. Completos. E sem fome. Porque a mini geleira azul regressa sempre mais leve. Dizemos olá à senhora que lava os vidros do restaurante do dia anterior. Continuamos. Vamos sendo questionados pela Alice. Está numa fase maravilhosa. Inventa histórias e muitas perguntas. Quando não percebe o que lhe dizemos retribui com um “o quê”. Que repete até encontrar o significado. E depois usa tudo o que aprende. E surpreende. E nós ficamos babados. E suados. Porque também cansa. É ela quem chama o elevador. Que nos leva ao nosso andar. E depois, abre-se uma cerveja. Estendem-se as toalhas. Os fatos de banho ficam de molho. E nós ficamos mais insonsos. E lá seguimos na rotina que difere a cada dia. "Rotina-se" porque há sempre um passeio ou uma ida ao parque. "Rotina-se" porque no regresso estamos cansados. Sempre. Mas nós. Porque a Alice não dá parte fraca. Que maravilha. Isto sim, a melhor coisa do mundo! São os nossos dias. Aqueles em que nos sentimos ainda mais verdadeiros, porque nada mais interfere em nós. Aqui ficamos. Permanecemos. Vivemos as nossas férias. Aquelas que nos ficam na memória. Aquelas que vão deixar rasto na Alice. Na Quarteira. Onde ir ao café implica pedir qualquer coisa. Um gelado ou um chupa. Na Quarteira. Onde ainda existem VHs. Na Quarteira. Onde todos os anos a Alice perde o medo do mar. Onde fazemos amigos com pronúncia. É a pronúncia  do norte. São famílias cheias. Muitas cartadas na praia. E nós ali. Os três. E a três. Mais as amizades da Alice. Aproxima-se. Observa. Aproxima-se mais. Vais buscar os brinquedos. Instala-se. E começa a brincar. Sem medos. Quer amigos. Já arranjou uma avó para os castelos. Já brincou com a Mariana. Já falou com a Matilde. E agora tem a Joaninha. Têm a mesma idade. Chamam uma pela outra. Querem ficar juntas. Mesmo que depois não saibam brincar. Ou saberão. À maneira delas. E nós ali ficamos. Sem sentir a toalha. Quase sempre na areia molhada. A observar. A brincar. A mergulhar. Sem parar. Que maravilha! Estamos de férias. Para mim serão sempre as melhores férias. As nossas. Só nossas. Onde nos fartamos de nós… e de ser nós.     

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Voltei onde casei




Foto: ADORO














Voltei onde casei. Com a Alice. Saímos da creche. Fomos como habitualmente até ao carro. A brincar. Gosto de estacionar o carro longe. Ao contrário de muitos. Sentei-me no banco de trás e a Alice ao volante. Fingiu que estava a conduzir. Disse que íamos para as férias. E quando a viagem terminou sugeriu que fôssemos passear. As duas de mãos dadas. A dar voltinhas a uma espécie de jardins. Muito pequenos e um pouco abandonados. Tal como os prédios que os rodeiam. Parecem esquecidos. E nós ali. A passear pelo abandono. Pela degradação. Por dois tapetes pendurados numa corda prestes a tocar o chão. Não sei o que pensavam os outros pais que nos viam. Também não me interessa. Mas lá recuperámos os nossos papéis. Eu ao volante e Alice na cadeirinha. Ainda sugeriu que fôssemos à loja. Lembrou-se que nas tais férias tinha ficado de escolher uma mala pequenina. Teve azar. A loja encerra ao domingo à tarde. Ainda hesitei. Mas tomei a direcção certa. Fui para o Cristo Rei. Aquele sitio... Aquela capela... São especiais para mim. Há muito tempo. Desde que deixei lá um bilhetinho com os meus padrinhos e os meus primos. E eu de vez enquanto preciso de ir a sítios especiais. Estava vento. Muito vento. Tal como no dia em que casei. Dizem que estava muito frio. Eu não senti nada. Nem frio nem calor. Só amor. Estava tão bem. Foi tão bonito. Um dia quero repetir. Vou renovar o votos. Nós precisamos de renovações. Eu preciso. E hoje foi uma delas. Corremos ao vento. Eu e a Alice. Fizemos muitas pausas. Para olhar para o céu. Até conseguir ver o rosto do Cristo Rei. Corremos até ao limite. Às barreiras que não nos deixam cair. Tão linda aquela vista! Naquele dia nem a vi. Não escolhi o melhor mês para casar. Não dei ouvidos ao Quim Barreiros. Quis casar em dia de aniversário. No dia em que sempre celebrámos o amor. Era quase primavera. Acho que estava desagradável na rua. Eu não senti. Só o amor. E também andei por ali a pé. De braço dado com o Vitor. Mas não corri. Hoje sim. Fiz corridas. Subi e desci escadas e rampas a multiplicar. Até que entrei na capela. Especial. Sentei-me bem perto da porta porque estava com a Alice. Tive receio de perturbar. Mas ela ali ficou. Ao meu colo. Quieta. Sem os seus bichos carpinteiros. E ali ficámos as duas. No silêncio. Tal como há muito tempo não fazia. E se gosto de ficar em igrejas vazias. A pensar. A rezar. A fazer a tal renovação. Naquele dia estava cheia. De pessoas. De história. De emoção. E talvez de frio. Mas eu não senti. Só o amor. E a Alice ali estava. Sem mexer. Sem falar. Voltei onde casei agora com ela. A minha filha. E foi tão forte o momento. As duas. Não sei o que sentiu. Sei que quis ficar. Não quis sair. E eu fiquei. Apesar de as luzes estarem a apagar. Apesar de ficarmos cada vez mais sozinhas. Apesar de ouvir a porta a fechar. Só saímos quando nos mandaram embora. Expliquei-lhe que era ali que tínhamos casado. Eu e o pai. E ela disse-me que gostava de ali estar. Nem precisava de ter verbalizado. Sentiu-se. Voltámos às rampas e às escadas. Voltámos ao vento. Forte que nos travava na hora de correr. Mas nós ganhámos ao vento. Eu voltei a não sentir frio. Acho que a Alice também não sentiu. Perguntei-lhe duas vezes. Nunca me disse nem que sim nem que não. Acho que como naquele dia, foi amor que sentimos. E eu, agora que escrevo, acho que fiz as pazes que precisava. Naquela capela especial... onde um dia escrevi um desejo num papelinho... onde ofereci e recebi votos... onde casei com a Alice. Sempre que precisar vou voltar ao sitio onde casei.

Foto: ADORO



terça-feira, 4 de abril de 2017

acho que atingi a respiração ideal






















Não sei se vou conseguir explicar. Não sei se alguém irá entender. Se alguma vez alguém se sentiu assim. Mas tenho uma sensação como nunca tive. É um sorriso interno. Uma paz que se prolonga suavemente. Uma espécie de bem estar. Talvez a felicidade. Não sei. É apaziguador. É tranquilo. É discretamente bom. Parece que me sabe bem respirar. Ouvir. Sentir a respiração. Ouvir-me. Porque está tudo igual. Bem. Mas para melhor. Parece conversa de loucos. Talvez seja. Mas hoje (sábado) fiquei só com Alice. O pai foi ao Benfica-Porto. Saiu cedo de casa. Tipo final da Taça no Jamor mas sem o garrafão de vinho, sem o piquenique, sem a família e os amigos. Apenas com o cartão de sócio e com o cartão do cidadão porque a antecipação do jogo prometia filas e ruas cortadas e segurança apertada. E nós as duas regressámos de casa dos avós e da companhia dos tios e dos primos. A Alice estava febril. Preferi vir para casa. Como tantas outras vezes. Mas desta foi diferente. Estivemos tão bem. E costumamos estar bem. Mas houve cumplicidade. Mais do que o costume. Senti-a crescida. Conversámos. Ajudámo-nos. Divertimo-nos. Fomos cúmplices. E na hora de deitar a febre continuava a querer aparecer.  38.2 e a Alice cheia de energia. Disse-lhe que ia pôr o paninho na testa, tal como se fosse gelo. E tal como lhe fazia quando era bebé.  E ali ficámos. As duas. Eu a segurar o paninho. Ela a fazer-me festinhas. As nossas caras muitos próximas. O nosso olhar muito coeso. E cantámos. E rimos. E brincámos. E senti sempre um olhar apaixonado. Não sei se me sentiu a cuidar dela. Mas os olhos dela disseram-me isso. Não sei se me mentiram. Se vi coisas onde não existiram. Mas os olhos sorriam e pareciam apaixonados. E ali ficámos até chegar aos 37.05. Fomos para a cama. Escolheu a história da Girafa e do Pinguim. E na hora de ir apagar a luz... Fiquei com uma dor. Daquelas que nos congelam. Que não nos deixam mexer. Foi no ombro. Com certeza foi consequência da minha posição. Tal como a mãe girafa faço malabarismo com o meu corpo para estar na cama com a Alice na hora de adormecer. E o meu pescoço é muito mais pequenino. Ao sentir a dor pedi à Alice que esperasse. Fechei os olhos. E não mexi. E quando os abri senti que ela estava meio atenta. Meio preocupada. E sorri. E disse que já tinha passado. E lá ficamos às escuras. Beijo de boa noite. Seguiram-se os rituais habituais. E sinto uma mão nas minhas costas. Que me faz festinhas. Que me aperta. É a Alice que cuida. Como eu cuidei dela. Pergunta se a dor já passou. Tremo de felicidade. Digo que sim. Ela continua a fazer-me festinhas nas costas. Digo que é uma querida. Ela continua a apertar-me as costas. Agradeço-lhe. E a mão continua. Meiga. Para cima e para baixo. Apertadinha. E quando sai continuo a cantar. Para ela dormir. E ela adormece. E eu penso. Em muita coisa. A minha cabeça não pára. Já estou noutros momentos. Mas regresso. Quando saio do quarto. Quando respiro. Quando me apetece respirar. Porque é bom. Nunca senti. Parece que senti pela primeira vez que me ama verdadeiramente. Que me admira. Não sei explicar. Nem sei entender. Sei que sempre gostou de mim. Sei que às vezes diz que sou a Célia querida. Sei que me dá beijos e mimos. Sei que me abraça. Mas hoje senti mais. Suavemente mais. Sinto que respiro e que suavemente o coração aumenta... sem aumentar o ritmo cardíaco. Parece que atingi aquela respiração ideal. O batimento certo. Aquele que não nos preocupa. Que nos descontrai. Que no diz: É isto! Por mim... o coração podia entrar em loop. 

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Mãe.Trabalhar. Não. Aqui.

Palavras. Palavras. Palavras. Gosto tanto delas. De escrevê-las. Às vezes vou à infopédia. Às vezes o corretor ortográfico baralha-me. Às vezes zango-me com o acordo. São palavras, senhor! Palavras que parecem rosas. Às vezes fazem-me rir. Outras vezes suar. E são as palavras que correm na boca da minha filha. Assim em velocidade. Palavras soltas que ela entende. E que encadeia para comunicar. Não existem verbos. Para quê? Bastam as ideias. Bastam as palavras soltas. E bastam as expressões. Também não existem tempos. O tempo é só um. O presente. Tão bom. Porque havemos de crescer e olhar para o relógio? São palavras novas. Umas bem soletradas. Outras assim, assim. E muitas inventadas. Originais. Muitas palavras que significam muito. Outras palavras que apenas significam para ela. E nós dizemos que sim. Porque não sabemos como reagir. Palavras que ela já não usa isoladamente. Já desencadeia ideias. Mesmo que abdique dos pronomes. Mas comunica. E aumenta a dificuldade quando usa palavras mais criativas. Mas nessa altura é a expressão que a safa. Ou pelo menos ela tenta. Esforça-se. Não se deixa ficar. Também repete. Muito. Até lá chegar. E andamos nisto. Entre palavras. Palavras cheias de tudo. De amor. De orgulho. De interrogações. Palavras. Palavras. Palavras. Que se atropelam. E que nos aproximam cada vez mais. Mas senti falta delas. Já estou a recuperar. Mas andei a trabalhar. Mais do que o habitual. Dias sem parar. E foram menos horas com a Alice. Foram menos palavras dela. E houve um fim de semana em que apenas nos apertávamos de manhã. Quando a levava para a minha cama. Ainda a dormir. Sem querer desapertar. Ali ficávamos as duas. Coladas. Coladas. Coladas.  Ela ainda não conhece esta palavra, mas de certeza que a sente. E assim ficámos breves minutos. Juntas. E na minha ausência, trabalhar foi a palavra mais utilizada para falar de mim. Mãe. Trabalhar. Mãe. Trabalhar. De tal forma que quando lhe perguntei pela Bia que não vi na escola, ela me diz: Bia. Trabalhar.  De tal forma que na segunda-feira aproveitei para a apertar. Mais do que o habitual. Ficámos juntas na cadeira. Foi bom. Senti-la. Ouvi-la. Mãe. Trabalhar. Não. Aqui. Percebem porque não precisamos dos verbos? Nem dos pronomes?  Crescemos e complicamos. E naquela manhã, a Alice soube dizer que eu não estava a trabalhar. Que estava ali com ela. E que ali queria que ficássemos. Mas seguimos. Atrasadas. Abraçadas. Choramingámos as duas na hora de ficar. Mas disse-lhe que ia buscá-la. Acho que percebeu. E consegui. Já só sobrava ela na sala. E foi bom ouvir. Mãe. Aqui.  

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

regresso às aulas




Lembro-me do meu primeiro dia de aulas. Lembro-me de seguir no Clio verde claro metalizado da vizinha Amélia. Não se contavam as pessoas e seguíamos muitos. A Ana, a Marta, a minha irmã, eu e  o Ricardo Castanheira. Os dois deixámos o carro e lá entrámos na escola. Timidamente. Lado a lado. Como se não nos conhecêssemos. Sem falar. Lembro-me de ficar sossegada à espera que tocasse.  Ainda me vejo lá. Cabelo escuro. A franja. A olhar para a porta. E lembro-me de nos separarmos. Cada um seguiu para uma sala diferente. E ainda me lembro de ver a Canocha a correr com os cabelos mais cumpridos de todos e a mochila laranja que quase tocava o chão. Depois, lembro-me de não dormir antes de começar o 5º ano. Uma escola grande. Um trajeto para percorrer sozinha e a pé. Muitos livros. Muitos professores. Um horário para compreender. Alunos muito crescidos. Tantas e tantas novidades. Mais tarde, lembro-me de chorar baba e ranho no 8º ano. Quando na janela de sempre do Pavilhão A observei a minha turma. Li vezes sem conta. A tremer.  E lá estava eu. Sem a Canocha. Sem o Paulo Trindade. Sem o António. Sem... sem... sem. E foi a desgraça. O fim do mundo. E não parei. E só sosseguei quando consegui mudar de turma. E o Nuno Matias foi um querido. Trocou por mim. Que amor. Que prova de amizade. E na mudança para o secundário novas noites de ansiedade. O autocarro. A turma nova. As disciplinas. Mais pessoas. Mais pessoas mais velhas. As barracas dos ciganos que ficavam à entrada da escola. Depois, lembro-me da viagem de autocarro pela autoestrada até Setúbal. E de lá até à estefanilha. Pela primeira vez sozinha. Sem a Canocha. Só novidades. A turma. A exigência. As praxes. Em fila indiana com caras desconhecidas que se foram tornando familiares. O calor. As pinturas a derreter na cara. Os gritos. Os nossos. "Sexo, orgasmo, tesão, é tudo comunicação". Os deles "Caloiros". As roupas cada vez mais sujas. Os pombos e nós deitados nos dejetos deles. E finalmente o banho na fonte como manda a tradição. E o regresso a casa. No mesmo autocarro. Mas já com companhia. Todos sujos. Mascarados. Cansados. Mas mais felizes. No fundo é isto. O desconhecido mete medo. Mas passa. Todos passamos por ele. E hoje no trajeto de casa para a escola da Alice deparei-me com pais e miúdos frente às escolas. Lembrei-me que nós não tínhamos os pais. Lembrei-me da imensidão que era o primeiro dia quando implicava mudanças. Lembrei-me dos meus sobrinhos. Do Rodrigo que ainda só tem 9 anos e já vai para uma escola de grandes. Pequenino. Refilão. Imaginei-o à procura das salas. Imaginei-o a ouvir os professores. Confundido pelas novidades. Imaginei-o no refeitório perdido. Imaginei a Inês numa imensidão de gente. Gente diferente. Gente mais crescida, agora que vai para a Escola Secundária. Imaginei-a no mesmo canto como eu ficava com a Canocha nos primeiros dias. Os primeiros intervalos. Imaginei-a nas primeiras conversas com a turma. E ainda imaginei a Alice. Quando chegar a vez dela. Mas aí o pensamento congelou. Doeu. Não quis mais. E decidi escrever. Escrever que de facto custa o primeiro dia. A primeira semana. Custa ainda mais a semana anterior enquanto a mudança não se concretiza. Imaginamos. Receamos. Não dormimos. Tentamos disfarçar. Mas na verdade é só isso. Fiz o exercício e lembro-me de muito pouco. Lembro-me apenas daquilo que escrevi. No fundo, parece o fim do mundo. Andam os filhos. Andam os pais. Os tios. Os avós. Andam todos preocupados e ansiosos. Porque os filhos vão mudar. Porque os netos vão ter uma nova escola. Porque os sobrinhos vão ter mais responsabilidades. É parte do crescimento. Mais tarde são apenas algumas lembranças que ficam. A dor passa. E mesmo que as recordações nos façam suspirar elas fazem-nos crescer. Foi por isso que hoje quis escrever. A todos aqueles que ontem e amanha andam a sofrer com as mudanças dos filhos. Dói. Mas amanhã já sorriem mais um bocadinho. E depois ainda mais. E no futuro é tudo parte do crescimento. Deixem-nos ir. Descobrir. Mudar. Viver. 
Bom regresso às aulas. 

terça-feira, 13 de setembro de 2016

amor amor amor




















Nesta fase a Alice só quer adormecer com a mãe. Às vezes não apetece. Às vezes demora muito. Às vezes tento impingir o pai. "Hoje vais dormir com o pai?". Mas a resposta não surpreende. E lá subimos as escadas. Em direção à rotina. Até que a luz se apaga. E enroscamo-nos uma na outra. No verão custa mais. Às vezes ficamos coladas. Nas noites mais quentes. E nas mais longas. Nem sempre é fácil. Nem sempre a canção resulta. Mas se não canto a Alice canta por mim. Como se me pedisse. E quando recomeço ela silencia. Mas há noites em que não fica. Demora. Ontem foi assim. Estava difícil. Não queria descolar-se de mim. E vamos dançando pelo quarto. Mas o cansaço chama-me. Nessa altura é a cadeira antiga de madeira que nos embala.  Até eu fecho os olhos. Descanso. Mas não resulta. Ganho forças. Às vezes perco a paciência. Mas disfarço e volto a dançar. E quando não resulta regresso ao descanso. Ontem foi assim. Nessas noites levo-a para a minha cama. Ficamos. Camufladas. Uma na outra. Os meus braços nas pernas dela. As pernas dela nos meus braços. Ficamos. Entrelaçadas. Abraçadas. Sufocamo-nos. De amor. E ela adormece. De imediato. E agora sou eu que não consigo descolar-me dela. Fico ali. A olhar para ela. Venero-a no escuro. Encho o meu coração com os pensamentos. Acumulo amor como se de um balão se tratasse. Enche e enche e enche. Penso que a amo. Que a amo. Que a amo. Recordo-a no dia a dia. Vivo os momentos de novo. Mas de uma forma mais intensa. Em crescendo. Vivo a Alice nas suas primeiras conversas. Nas suas brincadeiras. Nas atitudes. No dia a dia. Mas vivo de outra forma. Em êxtase. E no escuro penso e sorrio. E estou menos colada à ela porque me vou libertando. Mas não paro de lhe tocar. Suavemente. E de pensar. Que amor. Que amor. Que amor. E depois pego nela. Para a devolver. Ao berço. Ao quarto. E para me devolver a mim. E quando pego nela. Pesada como nunca. Entregue a mim como nunca. A cabeça estende-se no meu braço e os meus lábios percorrem o rosto dela. Beijo-a. Beijo-a. Beijo-a. E penso no amor. No amor. No amor. Parece impossível. Parece inacreditável. Parece mais que tanto. Parece que este balão enche sem parar. E sem rebentar. Depois transfiro o peso pesado para o berço. E peço que descanse. Que Deus a abençoe. E agradeço. E depois regresso. A mim. Às tarefas. Ao dia seguinte. A Alice vai voltar a querer a mãe. A dormir com a mãe. E eu nem sempre vou ter vontade. Às vezes custa. Às vezes demora. Mas será para sempre o momento em que os meus olhos ultrapassam o escuro e fazem transbordar o coração. Um dia sei que vou deixar de impingir o pai. Espero não precisar de impingir a mãe. Espero que ela se enrosque na minha cama e me faça pensar no amor. No amor. No amor.